editorial
 «Nunca haverá um Fim da Humanidade: se uma aldeia sobreviver a uma catástrofe mundial e houver 100 sobreviventes, a História continuará…» - um historiador de cujo nome não nos recordamos.

«There will never be an End for Humanity: if a village survives a global catastrophe and, 100 survivors still exist, History will continue ...» - an historian whose name we don’t remember.
Há muito que o papel da edição se joga num aparente paradoxo: omnipresente e insignificante. Todos os dias editamos textos ou imagens com as ferramentas DTP (processadores de texto, programas de imagem, som, vídeo), ao mesmo tempo que nos afogamos na abundância absurda de informação. Sai de tudo «cá para fora», sem moral, disciplina ou censura – questões que reemergem depois em registos mais oficiais e institucionais.

For a long time, in this hyper-computerized society, that the role of publishing has been played in an apparent paradox: ubiquitous and insignificant. Every day we publish texts or images with DTP tools (word processors, software for sound and video) and, at the same time, we're “drowning” in an absurd abundance of information. All kind of things “come out to the public” - without ethics, censorship or discipline - issues that resurface later in more official and institutional registry.

Gostaríamos que o FUTURO PRIMITIVO fosse o derradeiro manifesto da arte de editar e daí termos convidado TODOS os sócios da CCC para participar neste volume! Estamos bem cientes das dificuldades que enfrenta quem queira fazer BD em Portugal: sem a mínima expectativa de retorno financeiro, a maior parte da produção é feita nos tempos livres do autor, depois de navegar no sítio das finanças, entregar um trabalho a uma empresa idiota, limpar a casa, jantar e pôr os putos a fazer ó-ó. A este ritmo, a putativa conclusão de um livro, orçando gloriosas 100 páginas demoraria... uma década?

«I step on skulls of generations that have not formed
I hear painful cries of wars that are to come
to create everything again, from the beginning
to teach new minds»
- Sepultura

A única alternativa é a famigerada antologia, onde têm cabimento trabalhos de curta e média dimensão. Dessas já nós editámos algumas e boas: Mutate & Survive (internacional de BD e ilustração), Mesinha de Cabeceira (zine), Crack On (internacional de BD, co-edição com o Festival Crack), MASSIVE (internacional de desenho) e Destruição (novos talentos nacionais). Geralmente é fácil juntar várias páginas criando um mostruário da produção contemporânea e, no entanto, faltam livros que sejam mais do que uma “polaroid” da produção do momento em que são feitos, que tenham “princípio, meio e fim” (embora haja alguns livros que apontam caminhos possíveis de uma produção colectiva em BD, como Heróis da Literatura Portuguesa (Íman, 2002) de João Chambel e Daniel Lopes, e Virgin’s Trip (El Pep, 2006) de Pepedelrey, JCoelho, Lacas e Rui Gamito; com as devidas diferenças temáticas e estéticas).

We would like “PRIMITIVE FUTURE” to be the last manifesto of the Art of Publishing and hence, we invited ALL members of the Chili Com Carne to participate in this volume! We are well aware of the difficulties that one, wishing to do Comics in Portugal, faces: without the slightest expectation of financial return, most of the production is done by the author in his/her spare time; after browsing the site of the Finances; submitting his/her work to an idiot company; cleaning the house; having dinner and after the kids went to bed. At this pace, the putative conclusion of a book gloriously estimating 100 pages, would take how long? A decade?  We started to prepare this project as the 12th volume of the CCC Collection, accompanied by an exhibition with the same name for the International Festival of Comics of Beja, soon followed by the Crack Festival in Rome, the Comics Festival in Helsinki and also Sweden, USA and Brazil. The given theme was dystopian and post-apocalyptic Science Fiction. As an inspiration, each author was asked to choose an item from a list of some of the biggest technological creations that caused Humanity to move forward into abyss: weapons, agriculture, fire, shelter, wheel, metal, currency, printing, steam engine, electricity, nuclear power, transistor, the pill and Dolly ... The Comics should be made ​​of two strips per page in order to isolate the images, as if they were illustrations for the exhibition and, in this way we’d combine the work of different authors. Strips / panels/ comics should be reorganized and mixed together, so that it would create a "meta-story" with the sum of all these “graphic-narrative units” of various Comics.

«— As ondas, como são as ondas?
— As ondas? Chumbo.
— E o sol?
— Nada (…)
— Então já é noite?
— Não.
— Então o quê?
— Está cinzento. Cinzento! CINZZZENTO!» - Samuel Beckett

Começámos a elaborar este projecto como o 12º volume da Colecção CCC, acompanhado por uma exposição homónima para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, seguindo para o Festival Crack em Roma, o Festival de BD de Helsínquia e ainda Suécia, EUA e Brasil. Foi dado o tema da ficção científica distópica e pós-apocalíptica. Para servir de inspiração foi pedido a cada autor que escolhesse um item de uma lista de algumas das maiores criações tecnológicas que fizeram a Humanidade dar os passos pró abismo: armas, agricultura, fogo, abrigo, roda, metal, cerâmica, moeda, impressão, máquina a vapor, electricidade, energia nuclear, transístor, pílula e a ovelha Dolly… As BDs deveriam ser constituídas por duas tiras por página para podermos isolar as imagens como se fossem ilustrações para a exposição e misturarmos assim o trabalho dos diferentes autores. As tiras/ vinhetas/ BDs deveriam ser reorganizadas e misturadas de forma que se criasse uma “meta-estória” com a soma de todas essas “unidades gráfico-narrativas” das várias BDs.

So, we also opened the doors to the authors who were not connected to Comics. For example, illustrators or those who make collage, painting, graphic design ... We know well that these creative people are afraid of producing Comics but, we managed them to make “cadavre-exquis Comics”. It means a Comic book that goes hand in hand without the previous author's narrative control. The starting point for each sequence was carried by an author of each city that will host the exhibition: Susa Monteiro (Beja), Valerio Bindi with MP5 (Rome), Jarno Latva-Nikkola (Helsinki), Mattias Elftorp with Sofia Lindh (Mälmo ) and Nevada Hill (Denton).

«No final, uma penumbra permanente pairou sobre a terra, uma meia-luz somente interrompida, de vez em quando, quando um cometa riscava o céu negro. (…) Olhei em meu redor, em busca de vestígios de sobrevivência de vida animal. (…) No entanto, nada vi mexer, em terra, no ar, no mar. Somente os limos verdes nos rochedos testemunhavam que a vida não estava extinta.» - H. G. Wells

Assim abríamos as portas também a autores que não sejam da BD, como ilustradores ou quem trabalha com colagem, pintura, desenho gráfico… Bem sabemos que estes criativos têm medo de fazer BD mas nós metemo-los a fazer “BDs-cadáver-esquisito”, ou seja, uma BD que passa de mão em mão devendo cada novo autor dar continuidade à narrativa esboçada pelos autores anteriores. O ponto de partida para cada sequência foi lançado por um autor de cada cidade que irá receber a exposição: Susa Monteiro (Beja), Valério Bindi com MP5 (Roma), Jarno Latva-Nikkola (Helsínquia), Mattias Elftorp com Sofia Lindh (Mälmo) e ainda Nevada Hill (Denton).

We even added 3D pages connected to the theme of this year in the Crack Festival and we encouraged the authors to make something different. We asked the musicians -associated (or not) - to send concrete sounds, loops, spoken-word, drones or songs as a soundtrack for the exhibition and the book –standing in line for free download on the net-label You Are Not Stealing Records.

Juntámos ainda páginas 3D para fazer a ligação ao tema deste ano do Festival Crack e para incentivar os autores a fazer algo diferente. Pedimos aos associados músicos (ou não) para enviarem sons concretos, loops, spoken-word, ruídos ou canções para uma banda sonora da exposição e do livro - estando em linha para descarga gratuita na Net-label You Are Not Stealing Records.

«O primeiro homem nunca existiu.» - um antropólogo.

And, in the end ... one made a mountain out of a molehill! We failed! You will see why...

E no fim… a montanha pariu um rato! Falhámos! Vocês já vão ver porquê...